O Vegetariano Imparável - Diogo Graça Moura

diogo graça moura vegetariano imparavel vegan atleta enduro windsurf motocross

Diogo Graça Moura é atleta de windsurf, motocross e enduro e é vegetariano-vegan. Como vice presidente da BERD - One Bridge One Solution, viaja de Portugal à America do Sul quase todas as semanas conseguindo, ainda assim, manter a sua prática intensa de desportos altamente exigentes. Aos 43 anos, é uma pessoa muito enérgica, sente-se “mais em forma do que nunca”, tem análises “dignas de capa de revista” e diz que deve o seu bem-estar e força à escolha de uma alimentação e estilo de vida saudáveis.

"Tudo começou com uns smoothies e acabou por mudar a minha vida de forma definitiva. A sensação que tive foi a de começar a puxar pela ponta de um novelo de lã. Atrás dos smoothies vieram as saladas, os doces maravilhosos, os ‘superfoods’, os pequenos-almoços, ronda pelas lojas da especialidade, etc… - receitas com sabores incríveis, muito fáceis de fazer e super saudáveis. Percebi que já não voltaria atrás.”

FC: Como é que tudo começou Diogo?

DGM: Tinha uma alimentação tradicional portuguesa. Tinha algum cuidado no meu dia-a-dia. Comia pouca carne vermelha, preocupava-me em beber sumos de fruta, etc. Depois, quando soube que tu existias, quis fazer um workshop. A minha ideia inicial era aprender mais sobre sumos. Aliás ainda nem te conhecia e gravei o teu número como ‘Filipa Smoothies’.

FC: Nessa altura já fazias bastante desporto e tinhas uma carga de trabalho bem pesada. Como é que te sentias?

DGM: Sim, já era uma loucura. Na altura achava que me sentia bem, mas só agora tenho consciência de que isso não era verdade. Hoje posso dizer com certeza que só depois de mudar os meus hábitos alimentares é que passei a sentir-me verdadeiramente bem.

FC: Isso é um aspecto muito interessante. Muitas pessoas dizem-me que se sentem bem com hábitos pouco ou nada saudáveis - "a minha avó viveu 95 anos e comia carne, fumava, bebia, etc." E não é mentira. Também tive fases em que me senti bem sem grandes cuidados, mas sempre que faço uma limpeza mais profunda, atinjo um nível de bem-estar físico e de consciência que não imaginava possível.

DGM: As pessoas sentem-se bem dentro daquilo que conhecem de si próprias, ou seja, relativamente bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes não conhecem o seu potencial, nem quão melhor se podem sentir se mudarem certos hábitos. Se disser que a minha alimentação teve implicações no meu nível de consciência, as pessoas dizem que sou ‘xoné’. Mas essa é a realidade. Sinto muito menos stress, muito menos agressividade, menos mau humor e uma maior conecção com tudo à minha volta.

FC: O que é que procuravas quando ouviste falar na diospiro?

DGM: Queria tornar-me mais saudável, ter uma alimentação melhor. Queria perceber o que é que podia introduzir na minha vida que tivesse um impacto forte e positivo. Essa foi a abertura da porta. Atrás disso vem tudo: começas a perceber que tens que fazer um reset à tua máquina, que tudo o que aprendeste tem que ser posto de lado. Ou seja, tens que re-aprender - o que nem sempre é fácil. Não é uma coisa estática, é um processo evolutivo...e para o resto da vida - já não queres voltar atrás. Vais ter que descobrir coisas novas, pesquisar, procurar as tuas fontes, e aprender a ter consciência do que se passa contigo e em ti, porque não há receitas universais. O que se aplica a uns não se aplica necessariamente a outros. Um exercício engraçado que também me ensinaste foi ir tirando notas sobre aquilo que fazia e como me sentia consequentemente. Foi espectacular e ajudou-me bastante. Ia escrevendo os smoothies que inventava, se eram bons ou maus, quando é que tinha fome outra vez, como é que me sentia...

windsurf diogo graça moura diospiro lifestyle healthy entrevista saudavel

FC: Interessa-me bastante a questão de tudo isto ser um processo evolutivo. No fundo a ideia não é 'anotarmos umas receitinhas e já está'. Gosto que as pessoas aprendam as ferramentas base com as quais possam evoluir sozinhas. O mais importante é mesmo tornarmo-nos cada vez mais  conscientes, mais sensíveis, e mais responsáveis por nós próprios e por aquilo em que directa e indirectamente temos influência.

DGM: As receitas ajudam no início. A diversidade de ingredientes que usas numa dieta vegan ou vegetariana é tão maior do que numa dieta tradicional... E as pessoas não têm noção disso: "Mas o que é que tu comes? Alface?". Não, milhares de coisas. Como tudo menos carne, peixe, lacticínios e açúcar. E as combinações possíveis são infinitas. Milhares de coisas que não existiam na minha dieta, passaram a fazer parte dela. Mas é importante mencionar que mudei a minha alimentação por uma questão de saúde e bem-estar, e que isso teve um impacto na minha consciência. Foi nessa altura que comecei a colaborar com a Animais de Rua e mais tarde com a Quinta das Águias. Depois veio a questão da sustentabilidade. E parecendo que não rapidamente se chega às questões éticas e espirituais que já nada parecem ter a ver com a alimentação, mas para as quais ela é muitas vezes uma porta. No meu caso foi. Seja qual for o teu caminho, todos acabam por ir lá dar, quer procures isso conscientemente ou não. E de repente tens uma enorme fome de aprender, de conhecer, de ler. Começas a estar mais interessado em determinados assuntos, que têm a ver com a descoberta do "eu", com o auto-conhecimento.

FC: É matéria para muitas vidas... :) Disseste que as tuas análises são 'capa de revista'. Fizeste comparações? Antes e depois? O teu pai é médico, costuma ser ele a monitorizar tudo isso?

DGM: Sim, faço análises quase todos os anos. Nunca tive nada fora dos limites normais, mas tinha o colesterol já a aproximar-se do limite superior e os açúcares também não estavam muito baixos. A tendência, olhando para o histórico familiar, é ter colesterol alto. Três dos meus irmãos tomam medicação para essa condição e um conseguiu evitá-la por ter decidido mudar a alimentação. Sabia qual seria o meu destino e apesar de, ao contrário deles, fazer muito desporto, se tivesse a alimentação que tinha, ia inevitavelmente ter o mesmo problema. Hoje em dia, tenho provas factuais de que a alimentação vegetariana é mais saudável. Basta comparar as minhas análises actuais com as anteriores ou com as da minha família, que come o mesmo que eu comia - as diferenças são irrefutáveis. Tudo o resto - sentir-me melhor, mais enérgico, mais consciente - é discutível, porque as pessoas não têm como provar.
Há outra coisa que é muito importante. Eu, como mais de 50% da população portuguesa tinha, ou tenho, aquela bactéria helicobacter pylori, e desde que deixei de comer gordura animal, nunca mais tive nenhum sintoma. É impressionante, zero.

FC: A questão das análises é essencial. Se por um lado muita gente resiste à mudança de paradigma, por outro há quem se atire de cabeça sem saber o que está a fazer, como é o caso da moda dos detox - algumas pessoas ficam anémicas inclusive. Uma dieta saudável e mais natural, não eliminia a obrigatoriedade de uma monitorização cuidadosa.

DGM: Isso é porque há muita desinformação. Esta história dos detox... em todo o lado agora vês sumos detox. Como se as pessoas bebessem um sumo e desintoxicassem depois de terem comido um hamburguer ao almoço. Isso simplesmente não acontece.

FC: Sentiste uma grande pressão social por causa da mudança para uma dieta vegetariana/vegan - especialmente na tua família?

DGM: Piadinhas. É o costume, não é?! Continuo a ouvir piadinhas. Mas no fim de contas até a minha família - cuja alimentação é tradicional - e que trouxe aqui a jantar (Restaurante Vegetariano Em Carne Viva, Porto), ficou rendida. Todos. O meu pai estava espantado: "É possível comer bem e com sabor, que maravilha." Ou seja, os tabus vão-se quebrando, devagarinho. É como com as crianças, o importante é o exemplo. Podes falar, falar, falar, mas o exemplo é a melhor coisa que podes dar a alguém. As pessoas olham para mim e veem que estou muito bem físicamente. Faço 3 campeonatos nacionais e 21 fins-de-semana de provas por ano, para além dos treinos. Faço viagens transatlânticas semana sim, semana não, sinto-me em grande forma, não pareço ter 43 anos. Consequentemente a pressão social diminui. As pessoas a princípio brincam, mas depois até gostavam de aprender qualquer coisa. Querem, ou aliás sentem, que 'precisam' de mudar alguma coisa.

FC: Sim, chega uma altura em que mesmo que não saibamos por quê, temos a certeza de que já não queremos estar onde estamos. Viajas muito. Como é que adaptas os teus hábitos saudáveis às tuas viagens?

DGM: No Brasil vou a churrasqueiras que têm sempre um buffet enorme com vegetais e entradas - coisas óptimas: saladas frias de quinoa, feijões… Podes comer maravilhosamente bem e vegetariano numa churrasqueira, ao contrário do que se imagina. Nos aviões já tenho marcado o perfil vegan e servem-me sempre refeições vegan. Na TAP curiosamente são boas e nalgumas outras companhias também.

FC: E em restaurantes que tenham menos diversidade, como um restaurante típico Português?

DGM: Já há quase sempre um prato vegetariano e as pessoas normalmente têm boa vontade quando digo que não como carne e peixe. Fazem-me um arrozinho malandro de tomate com feijão e fico óptimo. Se não houver mesmo nada, faço uma coisa que não me agrada: como uma omelete. Como ovos muito raramente e só de galinhas criadas ao ar livre e de produção biológica.

FC: Sentiste uma mudança grande na tua performance nos desportos exigentes que praticas?

DGM: Participo nos campeonatos nacionais de motocross, que é considerado o desporto mais exigente do mundo. Faço formula windsurfing, que é muito exigente em termos de força, e faço enduro, que é muito exigente a nível de resistência. Ou seja, todos eles têm uma componente diferente, por isso tenho que ser um desportista muito completo. Com a mudança de alimentação senti muito mais energia e uma melhor performance, sem dúvida.

motocross diogo graça moura diospiro lifestyle healthy entrevista saudavel

FC: E a clássica pergunta feita aos vegetarianos…a proteína?!

DGM: Mito nr. 1 - e geralmente a primeira pergunta que me fazem… A proteína está em todo o lado e nunca se ouviu falar em ninguém com défice de proteína - excepto em casos de fome extrema. Seja como for, num treino de hipertrofia, é aconselhado tomares 1.5 vezes o teu peso em gramas de proteína. Eu peso 62kg, ou seja, quando treino para aumentar músculo devia tomar 93 gramas de proteína. Seguramente consigo tomar isso, tendo algum cuidado.

FC: O que é que consomes? Sementes de cânhamo, por exemplo?

DGM: Sementes de cânhamo, proteína de ervilha, pólen de abelha, farinha de tremoço, amendoins, frutos secos, amêndoa, pasta de amêndoa, leguminosas... A questão é só como dosear para obter um resultado específico, como no caso do desporto. Tens que estar com mais atenção à gramagem e à forma como combinas. A combinação de determinados tipos de alimentos ajuda à fixação das proteínas. Mas em geral é uma coisa em que eu nem penso. Não é um problema.

FC: Sentes que essa diferença na alimentação te ajuda a recuperar de lesões desportivas mais depressa?

DGM: Tenho consciência de que muitos dos alimentos que como têm propriedades anti-inflamatórias. Mas o que sinto é que, com a idade, a rapidez com que curo lesões não diminuiu e isso é muito positivo. Recupero muito rapidamente e diria que isso é fruto da alimentação que faço.

FC: Tens um filho pequeno. Faz a mesma alimentação que tu?

DGM: Tive sempre o cuidado de lhe dar muitos legumes e sopa. Não gosta de doces, não gosta de chocolate, não come rebuçados, não come nada disso. Mas é uma opção dele. E tem uma saúde de ferro. No primeiro ano de infantário, que é sempre dramático, foi o único miúdo que não ficou doente nem um dia. Tem muita energia, é alegre, vivo e tem uma relação muito forte com os animais. Tem 4 anos e faz a mesma alimentação que eu. Não tem televisão em casa e não é hiperactivo. Tem muita energia e é muito atento, mas ao mesmo tempo muito calmo. E não só não faz cara feia para comer bróculos e saladas, como faz questão de os comer. Mas se na escola o almoço for um panado, come panado e nem me preocupo com isso.

FC: Isso toca num ponto muito importante também, que é a questão dos fundamentalismos. No meu caso, por ter sido uma necessidade pessoal por ter artrite, mudei radicalmente os meus hábitos e a verdade é que, a dada altura, se tornou uma obcessão. É essencial manter o equilíbrio e saber dar espaço a umas 'asneiras' de vez em quando.

DGM: Eu nem penso nisso. Sei que no dia-a-dia tenho uma alimentação saudável e de qualidade, por isso quando me 'vingo' é com zero peso na consciência. Mas é importante não esquecer que o impacto das nossas escolhas vai muito além daquilo que é agradável para nós… A questão da sustentabilidade é muito desvalorizada, e no entanto crucial. Cada vez mais é preciso ter consciência de que não é sustentável comer carne na quantidade que se come. Por exemplo, nos Estados Unidos, mais de metade da produção agrícola é destinada à alimentação de gado. Essa produção podia alimentar muito mais gente, caso se aderisse globalmente a uma dieta vegetariana. Para além disso, mais de 50% da poluição mundial vem da indústria agropecuária. Uma alimentação vegetariana global teria um impacto profundo no planeta e talvez seja mesmo uma mudança obrigatória. Até a ONU alerta para esse facto.

FC: “Se os matadouros tivessem paredes de vidro…”
Para acabarmos em tom positivo, começaste a meditar entretanto. Que diferenças tens sentido?

DGM: Comecei aos poucos e fui-me apercebendo apenas dos benefícios, digamos, mais básicos da meditação. Menos stress, maior concentração, mais energia, melhor humor. Mas depois comecei sentir um impacto muito mais profundo. Se uma pessoa conseguir meditar entre diferentes esferas da sua vida, consegue aproveitar cada uma delas ao máximo, ser muito mais eficiente e mais feliz. Por exemplo, se fizeres uma pequena meditação antes de sair do trabalho, funciona como um ‘reset’. Quando chegas a casa e entras na tua esfera pessoal, não trazes contigo a energia do fim de um dia de trabalho. Passas a estar no ‘aqui e agora’ e a viver cada momento a 100%.

FC: Obrigada Diogo. Muitas vezes, mais do que um artigo científico ou teórico sobre um determinado assunto, é uma história - a experiência de vida de outra pessoa - que nos inspira a mudar. A tua fica contada aqui em parte e quem sabe, irá inspirar alguns leitores curiosos sobre estes temas!

Gostou desta entrevista e quer receber os nossos conteúdos por email, juntamente com o nosso ebook gratuito de sumos e batidos? Subscreva a nossa newsletter aqui!

Siga-nos também no Facebook, Instagram e Twitter!